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Chá dos 3
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quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Angústia (continuação)


E graças a 5 pedidos (uau) aqui segue a 2ª da parte de Angústia (Parte 1 aqui). Espero que gostem.

Bjinhos, Tatá!

Quantas vezes eu teria que morrer para nascer de novo?

Já fazia três meses desde a minha decisão de morrer, mas eu andava sendo vigiada como uma prisioneira perigosa com poderes mediúnicos. Do banho ao sono, era acompanhada em todos os momentos. Bastava pegar um lápis e todos ficam na expectativa do próximo movimento. Será que eles achavam que eu me furaria com um lápis? Era patético até para mim. Nem sei como me deixavam depilar as pernas. Eu me sentia como um daqueles palhaços de rua, que andam sempre com uma sombra. A sombra era quase sempre Louise, minha irmã mais nova.

Louise, três anos mais nova, passou a ser uma agente do Tom Cruise cuja missão era me proteger. Ela comia comigo, dormia comigo e quando não satisfeita, me perguntava umas trinta vezes ao dia se estava bem e se queria alguma coisa. Louise não tinha culpa de nada que aconteceu, mas ela foi o meu Judas. Descontei em minha irmã toda raiva e mágoa que senti. Ela conheceu o meu pior lado, a ogra que habitava o meu pântano interior.

Não fui uma boa irmã nesse período, me sinto culpada. Quando a razão começou a bater na porta outra vez, passei a ficar em silêncio. Prometi que não descontaria minha dor em mais ninguém, e da garota revoltada e agressiva, passei a fantasma se arrastando de pijama e meias pela casa.

Magra e pálida, comia o que colocavam no prato. Se era carne ou ração não saberia dizer. Vivia no meu mundinho da maneira mais egoisticamente possível, sem reagir a nada ou a ninguém. Desde o dia fatídico eu não sabia mais o quer era chorar ou sorrir. Eu só tolerava o dia e rezava para chegar a noite e dormir. Eu queria morrer, mas não assim, um pouquinho de cada vez.

Acordo um dia pela manhã com um cheiro característico, um cheiro bom, que depois de meses me faz sorrir timidamente. Levanto e coloco um moletom qualquer e me arrasto até a cozinha. E lá está ela com um bolo de cenoura nas mãos e um sorriso sem jeito nos lábios. Bolo de cenoura era golpe baixo e isso era coisa da Louise, que obviamente havia se juntado ao lado negro da força. E ela continuava lá, com aquele jeito sem jeito, meio nervosa, meio rindo: a minha avó com açúcar e afeto.

Não sei se devo abraçá-la ou não. E pela primeira vez em tempos fico com vergonha do meu moletom Rock Café manchado e do cabelo de Pedrita. Chego a pensar que ela vai me alcançar um osso para enrolar na franja, então vejo que seus olhos estão úmidos. Mas ela é uma mulher prática e não se intimida. Me manda tomar um banho, trocar de roupa e arrumar o cabelo.

Quase com um andróide olho para minha avó e concordo com a cabeça. Saio correndo como uma maluca e subo as escadas dois degraus de cada vez. Eu queria viver, queria muito viver. E tinha pressa.

Para desespero de todos vovó veio decidida a me levar para sua casa de campo, como ela chamava a pequena propriedade a 20 minutos do centro da cidade. E depois de muita conversa e discussão, acusações mútuas entre mãe e filha, pitacos de meu pai e histeria de Louise, a matriarca bateu o martelo: eu iria e ponto final.

Mamãe me abraçava e chorava como se eu fosse para Bósnia em plena guerra civil ou como se eu nunca tivesse morado sozinha. Será que ela não lembra de como essa história começou? Eu, um noivo, um apartamento e um casamento marcado para novembro?

Minha avó jurou pelos doze apóstolos e Nossa Senhora da Medianeira que me cuidaria como um lobo, me encheria de carne gorda e leite, e deixou a promessa de que em quatro semanas me devolveria redonda e rosada como uma camponesa.

O que mais eu poderia fazer se não segurar a sua mão e agarrar a oportunidade que ela me dava?

Fomos em silêncio até a Granja Real, como Louise e eu a chamávamos. Naquele tempo me sentia uma princesa da realeza. E quantas lembranças maravilhosas desse lugar, que tinha rio, cavalos e um cheiro único: cheirinho de felicidade.

Desço da caminhonete velha dos meus avós e vovó sai apressada para preparar o jantar. Meu avô está esperando em frente à casa e nos olhamos em silêncio. Sabemos que ‘aquele’ assunto é proibido e só me magoaria, mas não sabemos sobre o que mais falar. Ele me dá um livro do Pablo Neruda e diz para ler com carinho, porque ele fala de amor. Desde criança meu avô me presenteia com livros, todos sublinhados, com asteriscos, flechas e comentários. É um jeito de me dizer o que pensa e dizer que se importa comigo. Com os poemas de Pablo Neruda não poderia ser diferente. Lá estão as marcações, só que agora coloridas.

Ele senta na cadeira que está na varanda e faz um sinal para me aproximar e sentar em seu colo. Sinto-me meio velha para fazer essas coisas, mas aceito seu convite, sentando com cuidado. Ele me puxa para mais perto e eu encosto a cabeça no seu peito. Como uma criança ele me embala, e então aquilo acontece. Como uma chuva de verão as lágrimas começam a rolar de mansinho, aquelas lágrimas presas desde o dia que decidi morrer. Era a minha chuva simbólica lavando a alma.

Agora as lágrimas ficam mais grossas e choro soluçando. Entre raios e trovões a tempestade toma conta de mim. Me agarro ao meu avô como que procurando limites, como se a minha vida dependesse disso. Minha avó nos abraça por trás e dá batidinhas no meu braço, sinalizando que tudo acabaria bem.

Ficamos assim, abraçados em silêncio, dividindo a minha tristeza e compartilhando todo amor que existe entre nós.

Agora sim, estou limpa, estou viva e pronta para recomeçar.

(Continua...)

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Angústia


Queris,

Por incrível que pareça escrevi essa história num lindo dia de sol, depois de comprar umas coisas no Boticário. Passei correndo na loja que fica no shooping, durante o meu horário de almoço, e na volta para o trabalho comecei a pensar nessa historinha.

Isso faz uns 2 meses, mas vinha guardando a história porque tinha outros planos para ela, achei meio pesado e deu vontade usá-la como parte de alguma coisa maior.
Como ando sem tempo para criar, vou postá-la hoje. Talvez ela tenha continuação, talvez não.
O que vocês acham?

Bjinhos...

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Angústia

Sinto-me estranha. Estou deitada em algum lugar, está gelado. Não consigo abrir meus olhos, eles estão pesados. Estou sozinha em algum lugar. Não consigo lembrar onde estou. Meu coração bate rápido, não escuto nada, apenas um zumbido. Minha boca está amarga. Será que desmaiei?

Onde estou? Por que não consigo lembrar? Será que morri? A quanto tempo estou aqui? Meses, minutos, segundos?

Alguma coisa aconteceu... Não consigo lembrar. Alguém foi embora... Alguém...

Aos poucos vou lembrando. Estou no chão do meu quarto e estou sozinha. Meu noivo me deixou. Fui abandonada a meses do casamento. Minha vida acabou.

Estou pesada. Não posso levantar. Sinto o peso da minha tristeza, dos momentos que não vivi, das humilhações que passei, dos filhos que não tive, do amor que não vivi.

Por que fui abandonada? Por que ele me deixou? Anos de promessas se esvaindo entre meus dedos. Anos engolindo sapos, engolindo meu orgulho, engolindo sobras por algo que pensei ser o amor.

Fui rejeitada. Que humilhação. Sou uma mulher separada.

Não tenho mais tempo para reconstruir meus cacos. O que vão falar de mim? Que não segurei meu homem? Que não sou bonita o suficiente? Que sou tão pequena quando me sinto agora?

Alguém entrou no meu apartamento. Será que ele voltou? Arrependeu-se? Meu coração bate rápido outra vez.

Nada. É apenas minha irmã. Ela fala comigo mas não a ouço. Vejo apenas um amontoado de gestos. Ela está preocupada, grita comigo, me sacode. Não sinto nada. Agora sou apenas minha dor e o vazio.

Ela me apóia e então levanto silenciosamente. Estou em choque. Sento na cadeira em frente ao espelho e tiro minha aliança de compromisso. Meu ultimo gesto de dignidade. Meu ultimo vínculo com quem fui.

Olho meu reflexo e caio num choro incontrolável. Ninguém sabe, mas naquele momento resolvi que não queria mais viver.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Você ainda me ama?


É dia de histórias inventadas... então vamos lá... para mais uma história. Estou romântica essa semana... deve ser alguma conjunção no mapa astral favorecendo esse aspecto. Confirmarei com o Personare... rsrsrs

Espero que gostem da historinha!
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Peguei o violão, alguns trocados e fui viver uma vida de filme. Aquele em que se é feliz correndo o mundo com uma mochila nas costas, trocando arte por moedas e vivendo amores de verão.
Você disse que não daria certo, mas sempre fui teimosa demais para ouvir. Você estava certo. Você sempre está certo, mas você já sabe, é assim que eu sou. Filha das tempestades, vivendo entre extremos, sentindo a essência da vida.
Quebrei a cara como você disse que eu faria. Voltei sozinha como você disse que eu voltaria. Mas voltei sozinha porque aquela que você conheceu não existe mais.
Sou uma estranha. Sou melhor. Sou saudade. Sou eu mesma.
Não sou mais tão leve quanto fui, o sorriso agora não vem fácil, é preciso ser mais inteligente para arrancar minha franqueza. As mesmas coisas ainda me emocionam. Sempre me emociono. E não perdi a mania de abraçar e cantarolar. Agora minhas lágrimas vêm como a chuva, aos poucos, mas só quando preciso.
Encontrei o vazio dentro de mim e aprendi a conviver com ele, aprendi a andar sozinha, aprendi que ainda gosto de você.
E então, andando a passos lentos, brincando com o vento que insistia em desarrumar meus cabelos, ouvi alguém dizer que você ainda me ama. Será que ouvi certo? Será que aquela senhora que há anos sabe todos os segredos do bairro descobriu seus segredos também? Você ainda me ama?
Porque se for verdade, se você ainda me ama, posso te contar histórias dos lugares que passei. A vida é dura, mas Paris é linda durante a noite. Chorei de saudade, mas na Itália o amor é mais bonito. Sofri com o vazio, mas em Viena se encontra a música interna. Cometi erros, mas na Índia se experimenta o equilíbrio. Senti medo, mas entre as flores da Holanda se vê mais cores. Dancei com o destino, corri contra o tempo, olhei por muitas perspectivas. Vi peregrinações no muro das lamentações e encontrei Deus no sofrimento dos homens. Vi força e delicadeza nos olhos das mulheres e esperança nos olhos das crianças. Vi que era hora de voltar.
Atravessei distâncias para saber se ainda me ama.
Você ainda me ama?
Porque se você ainda me ama as coisas não precisam de um lugar.
Me conte seus segredos... Você ainda me ama?

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Uma amiga escorpiana - histórias inventadas


Hoje é dia de história inventada... na verdade é meio verdade, meio inventada... foi baseada em fatos reais. A diferença é que eu sou a escorpiana boa entenderam? Eu sou a boa né Dé? Né Daca? Né???


Eram dois amigos que astrologicamente combinavam. Conheciam-se desde os tempos de criança, quando perceberem que além de odiar física, gostavam de astrologia.
Ela era de escorpião e ele era de câncer. Ambos de água, sabiam que juntos encontravam o equilíbrio de suas extremadas emoções.
Em uma noite dessas conversavam sobre constelações, a viagem para a Inglaterra, plágio e regras ortográficas, quando ele olha para o céu e lembra de alguma coisa que leu sobre mulheres de escorpião. As boas e as más.

Aqui está na íntegra.

Um silêncio denso se estabeleceu entre ambos. Nada além de um suspiro profundo saiu da boca dela.

- Que foi? Ele pergunta.
- Nada.
- Como nada? Que foi?
- Não foi nada.
- Agora fala!

...

- Eu sou a escorpiana boa né?
- Oi?
- Eu sou a escorpiana boa. Essa da história que você falou.
- Se você diz...
- Hã?
- Claro, claro. *
- Hummm.

Ela era a boa. Ela sabia. Só queria que ele soubesse também. E ele sabia. Graças a Deus, para o bem de ambos, ele sabia.

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*Segundo a psicologia, palavras repetidas significam seu contrário. Sim, sim quer dizer não, por exemplo.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Bons Dias


Existem dias que são grandes. Grandes porque nos sentimos melhores, mais felizes e melhorados também. Nem sempre sabemos identificar esses dias, mas é impossível não senti-los, porque se expressam no que está intrínseco em nós.

São uma espécie de milagre, irradiando sensações prazerosas, nos conectando com o sagrado que existe em cada um, como num cumprimento indiano.

Dias assim não marcam hora para chegar e nem sempre serão lembrados no futuro. Eles acontecem nas sutilezas no cotidiano, no sol que acolhe e deixa as bochechas quentes, no céu tão azul que dá vontade de deitar na grama e ficar contemplando, esperando uma nuvem sapeca passar e se fazer de algodão doce. Dias assim nos conectam com o lado criança, aquele que não se importa com as horas, com a fome, com o punho da blusa sujo. Nada além do prazer da gargalhada, da companhia amiga, do abraço sincero.

Em dias assim, é bem provável que cantarolemos uma música interna, que só existe na nossa cabeça, ou ainda batamos o pé cadenciadamente quando uma música tocar próxima a nós. As pessoas se tornarão mais interessantes, bonitas e especiais. E é bem possível, também, que muitos bebês nasçam, boas notícias pipoquem e que se vejam muitas pessoas dando pulinhos, abraços e sorrisos despretensiosos.

Haverão toques consoladores, as mãos se procurarão na carícia e a vida ditará um ritmo que só se dança de olhos fechados. Amaremos com mais sentimento, mais entrega e consciência do que se é e não que se pensa, beijaremos com mais alma.

Não agradeça esse presente, não ofereça nada em troca, não procure por esse dia em outros dias.

Apenas aceite, respire, encontre, se encontre e seja.


terça-feira, 12 de abril de 2011

E o que é que ela vê nele?


E o que é que ela vê nele? Nossos amigos se interrogam sobre nossas escolhas, e nós fazemos o mesmo em relação às escolhas deles. O que é, caramba, que aquele Fulano tem de especial? E qual será o encanto secreto da Beltrana?

Vou contar o que ela vê nele: ela vê tudo o que não conseguiu ver no próprio pai, ela vê uma serenidade rara e isso é mais importante do que o Porsche que ele não tem, ela vê que ele se emociona com pequenos gestos e se revolta com injustiças, ela vê uma pinta no ombro esquerdo que estranhamente ninguém repara, ela vê que ele faz tudo para que ela fique contente, ela vê que os olhos dele franzem na hora de ler um livro e mesmo assim o teimoso não procura um oftalmologista, ela vê que ele erra, mas quando acerta, acerta em cheio, que ele parece um lorde numa mesa de restaurante mas é desajeitado pra se vestir, ela vê que ele não dá a mínima para comportamentos padrões, ela vê que ele é um sonhador incorrigível, ela o vê chorando, ela o vê nu, ela o vê no que ele tem de invisível para todos os outros.

Agora vou contar o que ele vê nela: ele vê, sim, que o corpo dela não é nem de longe parecido com o da Daniella Cicarelli, mas vê que ela tem uma coxa roliça e uma boca que sorri mais para um lado do que para o outro, e vê que ela, do jeito que é, preenche todas as suas carências do passado, e vê que ela precisa dele e isso o faz sentir importante, e vê que ela até hoje não aprendeu a fazer um rabo-de-cavalo decente, mas faz um cafuné que deveria ser patenteado, e vê que ela boceja só de pensar na palavra bocejo e que faz parecer que é sempre primavera, de tanto que gosta de flores em casa, e ele vê que ela é tão insegura quanto ele e é humana como todos, vê que ela é livre e poderia estar com qualquer outra pessoa, mas é ao seu lado que está, e vê que ela se preocupa quando ele chega tarde e não se preocupa se ele não diz que a ama de 10 em 10 minutos, e por isso ele a ama mesmo que ninguém entenda.

Martha Medeiros

segunda-feira, 21 de março de 2011

Tênis


Antigamente o tênis era um calçado modesto, de desenho tão simples que passava despercebido. Mas então o tênis mudou: nova tecnologia, novo design (só a Nike tem 300 modelos), formas e cores arrojadas, preços correspondentemente elevados, sómbolo de status, inclusive, o tênis cresceu em importância. Até o trágico: já se mata por um par de tênis, como aconteceu com o garoto Fábio Comune, de 14 anos, baleado por um marginal em São Bernardo, porque não quis entregar seu tênis.
A primeira reação diante de um caso destes é pedir a pena de morte. É o que faria qualquer pai ou mãe, principalmente tendo filhos nesta idade. Isto se não pensasse em fazer justiça com as próprias mãos. Mas, depois dessa primeira reação, que é automática, convém pensar um pouco, com menos automatismo.
O caso do infeliz Fábio não é o unico. O roubo do tênis é muito frequente, assim como é o roubo de mochilas, de relógios de roupas. Ao redor das escolas, privadas ou públicas, gravitam bandos de pivetes, que, nessa terra de ninguém, se iniciam na criminalidade. A reação de pais e responsáveis tem sido uniforme: mais guardas, mais muros, mais grades, mais advertências aos filhos. Que assim estão verdadeiramente sitiados, e amedrontados.
Mas será que não está na hora de pensar em outro tipo de solução? Será que não é tempo de pensar nos pivetes como crianças, que querem exatamente o que outras crianças querem, só que sem esperança de o conseguir? Lembro da frase de um amigo, o microbiologista Jorge Ossanai. Referindo-se às bactérias que causam intoxicação alimentar, ele dizia: o problema é que esses micróbios gostam dos mesmos alimentos que nós. A questão é partir do problema para a solução. Por que não falar com os pivetes? Por que não convidá-los, eventualmente, para a escola? Por que não lhes oferecer os tênis - e os brinquedos, e as revistas em quadrinhos - que as crianças da classe média tantas vezes jogam fora?
Esta idéia pode ainda não ter chegado ao seu tempo. Mas, no conflito com o outro, o jeito é se colocar nos sapatos - ou no tênis - do outro. O que só poderá acontecer se o outro tem sapatos. Ou tênis.

(Moacyr Scliar)

Jornal ZERO HORA - Seção "Opinião". p. 5, 13

E sabe o que é mais triste nisso tudo? É que a primeira vez que li esse texto foi lá no ano de 2000, numa prova de português, quando as provas ainda eram datilografadas!
E não foi por a prova ser datilografada que eu fiquei triste, caso a frase tenha ficado dúbia.

Uma homegem aos professores (as)!

Queridos.

Fim de semana estava olhando o programa Esquenta, mistura maluca com a Regina Casé, que eu gosto bastante. Olhei essa reportagem e queria que vocês vissem que lindas que são as histórias dessas professoras.
Parabéns a todos os professores! Um dia vocês hão de receber o reconhecimento que lhes é devido.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Sobre escrever

Você aprende durante toda a sua formação escolar o que é e como se deve escrever.
Você tem aulas de gramática, aprende semântica, concordância, interpretação e tudo que a língua portuguesa pode te oferecer para ser um bom leitor e escritor.

Você cresce, adquire novos conhecimentos e com o tempo desaprende a escrever.
Não, não me refiro a escrita do português meramente mas a aprender a se expressar com clareza. Isso tem explicação?

Bem, tem desculpa mas explicação penso que não. Vamos para a faculdade e aprendemos uma profissão e em função dela passamos a ler livros, artigos, periódicos, específicos da área e as demais leituras vão ficando para trás. Que pena!

Mas sempre é tempo de recomeçar mesmo que a passos lentos e não tão inspirados.
A escrita é apenas uma forma de comunicação.
Não! Com certeza essa afirmação não procede. A escrita vai muito além, ela é capaz de ser companhia, alento, fuga, (des)encanto, amizade, carinho, história e tantas outras coisas que poderíamos ficar enumerando por muito tempo.

Enfim, que tal usar menos ferramentas tão modernas e voltarmos a escrever propriamente dito. Porque não escrever uma carta para um amigo em vez de um e-mail, ou uma mensagem no msn? Porque não escrever um bilhete, uma história, uma carta para as pessoas que você ama. E isso o inclui. Escreva para você, escreva para os outros, escreva para nós.
Quantos belos escritores adormecidos podem estar vagando por aí?

quinta-feira, 17 de março de 2011

Sobre loucura, sobre camisas rosas


Ele era bonito de um jeito simples, era interessante e usava uma camisa rosa. Mas de todas as suas qualidades, a que ela mais gostava é de que ele era seu marido.

No começo o lance do rosa era até um charme. Ela adorava o ver bonito e chamando a atenção da mulherada. Mas com o tempo e o assédio feminino a brincadeira perdeu a graça e a camisa rosa virou paranóia.

Toda vez que ele saia com a maldita camisa ela começava a imaginar coisas. As colegas de trabalho elogiando. Desconhecidas lançando olhares furtivos. Solteiras flertando e piscando maliciosamente.

Isso era loucura. Ela sabia. Não podia evitar.

Secretamente se imaginava manchando a camisa, cortando-a com a tesoura, queimando com o ferro de passar. Mas não podia fazer isso. Fez melhor: escondeu a camisa e só a liberaria quando ele usasse com ela.

Nos primeiros tempos ele não se importou e até achou divertido o ciúme dela, mas agora isso não fazia mais sentido e ele queria a camisa de volta. E a teve. A contragosto.

Mas a devolução da camisa tirou a paz dela. Passou a ter sonhos com camisas. Acordava sobressaltada, suando frio. Estava ficando obsessiva. A camisa a estava vencendo.

Ela só podia estar louca mesmo. A camisa nem era um ser vivo!

A história foi tão longe que ele pediu o divórcio.

Explicou, com todo o jeito, que não tinha nada contra ela, inclusive a amava, mas do jeito que estava não dava mais.

Foi aí que ela se revoltou. Que ele pelo menos tivesse a decência de inventar um motivo melhor. Que a traísse com outra mulher. Que a chamasse de burra. Que a acusasse de egoísta. Se fosse preciso, que criasse um motivo. Era até ofensivo pedir o divórcio falando a verdade.

Quem ele pensa que é? Um samaritano, um franciscano, um tibetano?

Era um idiota, isso sim.

Como ela casou com um sujeito assim? Com tantos mentirosos no mundo ela foi se envolver justamente com um sincero?

Ela não queria verdade nenhuma. Ele que usasse a verdade dele com ele mesmo, com os amigos, com o analista.

Como toda mulher moderna ela tomou a única decisão cabível numa situação dessas.

Se ainda havia amor, o divórcio não era uma hipótese.

Estava decidido: tentariam recomeçar.

Ela abriria mão das reclamações, de suas melhores qualidades, suportaria toalha molhada e todas as condições que ele impusesse; mas de duas coisas não abriria mão: a camisa rosa ficaria sob sua jurisdição e as verdades seria inventadas, para não ferir ninguém.

A história nossa de cada dia


Dias desses estava trabalhando quando apareceu na minha sala uma senhora cheia de papéis e sacolas. Ela tinha uma intimação nas mãos e um horário marcado em algum lugar que ela não sabia qual era.

Dei uma olhada e realmente não havia nenhuma especificação. Como saber onde era ,uma vez que a universidade é quase uma cidade?

Comecei a ligar para vários setores e com a ajuda da má vontade de alguns colegas não descobri coisa nenhuma.

Então comecei a conversar com aquela senhora e ouvir de verdade o que ela tinha para me dizer. Ela contou que a intimação era para seu filho que havia sofrido um acidente há 12 anos atrás. Ele ficou com seqüelas graves e usava cadeira de rodas. Mesmo assim a família se uniu, ele se esforçou, fez um curso superior e andava viajando para Brasília e São Paulo em busca de tratamentos de reabilitação. Numa dessas idas ao Hospital Sarah Kubitschek acabou se apaixonando, casando e ficando por lá mesmo. Com dificuldades financeiras, ele entrou na justiça pedindo auxílio com pelo menos uma cadeira de rodas.

Depois dessa história logo identifiquei o que ela procurava: o setor onde se fazem perícias para reabilitação.

Acompanhei aquela senhora até lá, ouvi o resto da história e fiquei pensando na sorte dela ter ido bater justamente na minha porta.


Outro dia estava parada próxima de uma escola e vi um carro super velho estacionando. O motorista sai do carro e do banco de trás salta um menino, bem grandinho até. O pai abraçou o filho, falou coisas bonitas, o abençoou e desejou que ele tivesse um bom dia. Os dois usavam roupas muito simples.

Ele ficou de longe, dentro do carro, acompanhando o menino com os olhos até ter certeza de que ele estava em segurança.

Especulo até que não se aproximou para não envergonhar o menino, pois em seguido foi embora passando bem na frente da entrada da escola.

E eu fiquei pensando na sorte que tinha de estar ali justo naquele momento.

São histórias de mães orgulhosas de seus filhos que venceram.

São histórias de pais orgulhosos por seus filhos que prometem vitórias.

São histórias de pessoas que inspiram por gestos espontâneos.

São histórias de pessoas que nem se percebem observadas mas que se destacam pela autenticidade.

São histórias de pessoas como eu, que tentam fazer de cada dia uma oportunidade única.

São histórias de pessoas como você, que espalham sua luz nas ações menores do cotidiano.

São histórias de pessoas como nós, que não estão nos livros, mas fazem a história de cada dia.



E sabe o que é legal nessa música??? É que eu vi esse vídeo aí de cima ao vivo!!!

Estrela, Estrela

Composição: Vitor Ramil

Estrela, estrela
Como ser assim?
Tão só, tão só
E nunca sofrer
Brilhar, brilhar
Quase sem querer
Deixar, deixar
Ser o que se vê...

No corpo nú
Da constelação
Estás, estás
Sobre uma das mãos
E vais e vens
Como um lampião
Ao vento frio
De um lugar qualquer...

É bom saber
Que és parte de mim
Assim como és
Parte das manhãs
Melhor, melhor
É poder gozar
Da paz, da paz
Que trazes aqui...

Eu canto, eu canto
Por poder te ver
No céu, no céu
Como um balão
Eu canto e sei
Que também me vês
E aqui, aqui
Com essa canção...

segunda-feira, 14 de março de 2011

Seus amigos serão sempre.... Seus amigos!


Esses dias estava lendo o Blog Contra a Correnteza (se ainda não conhece clique aqui, vale a pena) e numa das postagens o autor questionava sobre o que fazer com os amigos quando um relacionamento termina. Sabe-se como dividir os objetos, mas como dividir os amigos que se fez a dois?

Então comecei a pensar sobre isso e entre tantas outras situações que nos obrigam a um posicionamento. Às vezes um grupo de amizades se dissolve, ocorre uma briga, um acontecimento inesperado, algo que obriga a tomar uma posição divisora. Ou ainda a própria vida se encarrega de afastar as pessoas: uma mudança de cidade, término da faculdade, troca de emprego, filhos, casamento...

Mesmo tantas coisas acontecendo, alguns amigos permanecem amigos, apesar de tudo.

Seus amigos são aqueles que ligam de vez em quando ou mandam um e-mail para saber se está tudo bem.

Seus amigos são aqueles que em momentos difíceis te apoiarão, mesmo não sabendo muito o que fazer.

Seus amigos são aqueles que comemorarão com você quando coisas boas acontecerem... Com eles ou com você.

Seus amigos são aqueles que te acompanham numa festa quando você está sozinha ou perdem uma tarde no plantão do hospital quando você não está se sentindo muito bem.

Seus amigos são aqueles que brigam muito com você se isso for para o seu bem.

Seus amigos são aqueles que conhecem seus pais, que sabem o nome da sua irmã, mas não sabem o nome da sua cor favorita.

Seus amigos são aqueles que amam os seus filhos.

Seus amigos são aqueles que aceitam suas escolhas, sua inteligência, sua religião.

Seus amigos são aqueles que entendem a sua ausência, mas cobram a sua presença.

Seus amigos são aqueles que entendem que suas prioridades mudaram, mas estão lá quando a saudade bate e você precisa de carinho.

Seus amigos são aqueles que deixam a porta da saudade destrancada, pra quando você quiser voltar.

Seus amigos são aqueles que dizem a verdade quando ela precisa ser dita, mas silenciam quando você precisa aprender sozinho.

Seus amigos são aqueles que te aceitam como você é e te ajudam a superar as dificuldades.

Seus amigos são aqueles em que você pode confiar, que te ajudam a enfrentar medos, a encarar desafios, a correr atrás dos seus sonhos.

Seus amigos são aqueles que apóiam causas positivas, não devolvem livros, pegam roupa emprestada, ajudam a montar e desmontar as festas que você dá.

Seus amigos são aqueles que não deixam você pra trás numa festa porque você não tem dinheiro, que não deixam que falem mal de você, que oferecem a casa ou a carona quando a coisa aperta.

Seus amigos são aqueles descobrem coisas que lembram você e o avisam.

Seus amigos são aqueles que visitam sem avisar, que embarcam em furadas só pra fazer companhia, que dividem o pouco ou o muito que tem.

Seus amigos são aqueles que fazem pare das suas memórias, dos seus sonhos, das suas projeções, dos seus melhores momentos, dos seus piores momentos, da sua rotina, do seu futuro, das suas fotos.

Seus amigos são os padrinhos do seu casamento, seus compadres, seus cúmplices.

Você os pode chamar de irmãos, de estrelas, de anjos, de folhas, de frutas...

Mas seus amigos serão sempre... Seus amigos.

Entre as várias experiências da amizade já vivi perdas e decepções, mas também vivi todas as alegrias possíveis.

Pela primeira vez posto imagens minhas como uma homenagem aos meus amigos pela amizade sem fim.










E essa amizade já rendeu até jornal

Arte e montagem por Débora Vogt (historiadora, jornalista, professora, namorada e amiga nas horas vagas)

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Houve um tempo... há muito tempo atrás... no tempo em que ainda se falava “Era uma vez”... Em que um grupo de amigos montou uma banda imaginária... que nunca saiu na imaginação... Não deixaram nenhum registro... Apenas duas fotos... Prova de que existiram... Prova de que não foi apenas um sonho.... Foram todos os sonhos...




quarta-feira, 9 de março de 2011

São as crises de amor

Para Aline, que gosta de história com final.



Você é inteligente, bem resolvida profissionalmente e está feliz com a vida que tem e as escolhas que fez. Mas se tem uma coisa que te tira do eixo além de liquidação e desconto é um certo rapaz que você vê de vez em quando na faculdade.

Além do nome, a única coisa que você sabe a respeito dele é que aparentemente vocês não combinam.

Você o encontra nos lugares mais inesperados. Você sempre conhece alguém que o conhece. Você o encontra nos corredores, entre intervalos de aula, na biblioteca e fica imaginando um monte de coisas. Você começa a cuidar os horários em que as coincidências acontecem. Você começa a acreditar em sincronicidade.

Você pensa que ele não é uma boa escolha. Observando de longe parece que vocês gostam de coisas diferentes. Você até já criticou algumas coisas e depois viu que ele também fazia aquilo. Ironicamente esse desacerto faz com você se interesse mais ainda por ele.

Se você não o encontrasse em tantos lugares, se as pessoas não insistissem em falar tanto com ele, dele e sobre ele seria mais fácil você desencanar um pouco dessa história.

Além disso, ele deve ser mulherengo. Só pode. Está sempre rodeado de “amigas”. Até parece que usa Avanço (sabe, aquele que elas avançam?) E você não faz esse tipo. Bem... Só um pouquinho... Quer dizer... Não assim do tipo que avança... Quer dizer... Deu pra entender né?

Você acredita em relações sólidas, beleza interior e vários outros clichês, mas tem que admitir que bem lá no fundo do inconsciente existe uma micro esperança de que ele seja tudo isso. E pobre do rapaz. Haja peito pra segurar tanta esperança projetada.

Você acredita que seu par ideal é um tipo meio engraçado, meio nerd, meio bonito. Tudo que ele não é. E fica falando isso para si mesma e para os outros várias vezes. Você tanto se boicota que seus amigos já perceberam que você está caidinha e vai acabar dando pinta uma hora ou outra.

E é isso mesmo que acontece. Numa festa qualquer uma das suas amigas, aquela de bom coração mas que bebe um pouco além da conta milagrosamente encontra o pretê e cheia de boas intenções vai conversar com ele.

Ele não entende muita coisa e você é salva pela incoerência dos embriagados, mas uma coisa ficou evidente, ela estava falando de você.

E daí pra frente é uma novela. Vocês se encontram mais do que antes, percebem mil afinidades, têm amigos em comum, comem no mesmo restaurante, entre tantas outras coisas.

Você ensaia um ‘oi’, pensa em algum assunto, talvez falar sobre o tempo, mas não sai nada. Você fica travada, com um sorriso estranho e uma espécie de espasmo no olho esquerdo. Assim não dá. Como vai puxar assunto parecendo uma retardada?

Como uma só pessoa pode provocar tantas reações?

Você o ama.

Você o odeia.

Você é uma covarde.

Mas ele não é. E ele vai virar o jogo. E vai até você perguntar qual é a sua. Mas de um jeito educado.

E não é que ele é bem legal? E tem bom papo. E confessa que é meio tímido. E tem uma irmã com o mesmo nome da sua melhor amiga.

E vocês conversam até perder a hora. E a conversa se estende para um telefonema à noite. Que se estende para um cinema na semana seguinte. Que se estende para depois do treino de futebol que você o viu jogar. Que se estende para um almoço na casa dos seus pais.

A história se estendeu tanto que virou namoro.

E é claro que depois de um tempo muita coisa aconteceu. Houve brigas, lágrimas, toalha molhada, TPM...

Mas essa é uma história de amor. Por isso acaba aqui... Em um tempo em que é possível ter e ser tudo... Em um tempo em que é possível amar e ser feliz ao mesmo tempo.


Será que a gente combina?


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